Nessa manhã, olhou para os pés e não os reconheceu. Perguntou-se quando teriam envelhecido tanto…
A forma, delicada e elegante, como se posicionavam no fundo do barco era a única reminiscência dos seus dias de glória em Bangkok. Uma ténue lembrança dos tempos em que exercia o milenar ofício de massajar com os pés.
Homens ricos e influentes de todo o país chegavam à capital para se entregarem aos prazeres quase eróticos que a sua arte era capaz de proporcionar.
O deslizar do seu pé, suave como uma pena, percorrendo os corpos, roçando zonas proibidas, causando arrepios de deleite….
A precisão, forte e determinada, com que calcava as zonas contraídas fazia capitular os masoquistas mais resistentes, envolvendo-os num ofegante oblívio.
Gostava de todos os clientes; dos que apenas lhe sorriam com timidez aos que se prostravam a seus pés, com juras de amor eterno e promessas de futuros auspiciosos que nunca se concretizariam.
O corpo do marido mexeu-se do outro lado da embarcação, trazendo-a de volta ao presente e à sua condição de mulher de barqueiro.
Foto: RCC. Mercado Flutuante. Bangkok, 2007